The Handmaids Tale trilha sonora.

Sucesso de crítica, a lista de qualidades de The Handmaid’s Tale é quase interminável. Mas dentre performances de tirar o fôlego, roteiro incrível e fotografia de encher os olhos, algo que chama atenção na série é sua trilha sonora. Quando no segundo episódio da série a icônica Don’t You (Forget About Me), do Simple Minds começou a tocar, no meio de uma sociedade que parece vinda da Idade Média, eu já queria começar a escrever um Trilhas Por Elas.

Baseada no livro O Conto da Aia de Margaret Atwood, publicado em 1985, a série narra os acontecimentos de um futuro em que os Estados Unidos passam por uma crise de infertilidade e foi tomado por um regime teocrático, a partir dos olhos de Offred, uma aia. Nesse mundo, aias são um grupo de mulheres ainda férteis cujo único propósito é gerar filhos para casais da alta sociedade. O futuro distópico da série lembra demais algum passado distante, mas sua trilha sonora, que muitas vezes vem como um tapa na cara do espectador, nos lembra o quão próximo do hoje a série se situa.

Em um mundo em que mulheres são proibidas de ler, não têm acesso a nenhum tipo de tecnologia e nem voz, cabe a trilha gritar por sua protagonista. Logo no primeiro episódio, enquanto Offred confidencia à audiência seu nome verdadeiro e sua vontade de sobreviver, os créditos que seguem vem ao som de You Don’t Owe Me, da Leslie Gore. É como se a música dissesse tudo que Offred gostaria de dizer aos Waterford.

As músicas que acompanham os flashbacks que nos explicam como o mundo chegou onde chegou, também são bem interessantes. Em um flashback de Moira e June correndo juntas ao som de Fuck The Pain Away, da Peaches, a música poderia ser encarada só como uma boa música para uma corrida. Mas com o slut shaming* que as personagens sofrem em seguida, o cunho extremamente sexual da música de repente se torna um ode à sexualidade feminina e um ato de resistência.

Em outro flashback, assistimos Moira e June em um protesto ao som de Heart Of Glass, de Blondie. Enquanto as pessoas tomam tiros e elas fogem tentando se esconder da polícia, a música expressa bem o amor que deu errado entre aquela sociedade e as mulheres.

Nina Simone, uma mulher incrível com uma fortíssima voz, tem uma forte presença permeando essa trilha. I Want A Little Sugar In My Bowl toca ao fundo do relacionamento entre Nick e Offred finalmente culminar em sexo, o primeiro momento em que Offred tem agência e pode experimentar prazer naquela terrível sociedade. Wild Is The Wind toca em um dos flashbacks do relacionamento entre o Comandante e Serena Joy, que com o florescer de Gilead só decai.

A última aparição de Nina Simone é no último episódio da temporada com Feeling Good, que talvez expresse mais os sentimentos do espectador naquele momento do que o de Offred. O momento é tão icônico quanto a música ao fundo, todas as aias voltam para casa depois do maior ato de resistência da história.

Em uma série que discute os direitos femininos, nada mais justo do que tamanha luta aconteça ao som de muitas mulheres poderosas. A trilha sonora de The Handmaid’s Tale é muito variada em gêneros e artistas, mas uma coisa que todas essas músicas tem em comum, é o poder de resistência contido em cada uma, assim como está na protagonista.

Confira todas essas músicas incríveis nessa playlist:

Slutshaming é definida por muitos como um processo em que as mulheres são atacados por sua transgressão aos códigos aceites de conduta sexual, isto é, de advertir-los para um comportamento ou desejos que são mais sexual do que a sociedade considera aceitável.