Padrão estético é algo que debatemos incansavelmente. Para ser mais precisa, falamos sempre sobre a necessidade de desconstruí-lo urgentemente. Nesse sentido, algumas séries já fizeram o seu dever de casa direitinho e mostram personagens que fogem à estética  vigente e que, por consequência, contribuem na pluralização das mensagens passadas.

Tudo isso é muito importante visto que se ver representado seja nos filmes, nas novelas, nas séries, nas revistas ou em quaisquer outros meios de comunicação  faz parte do processo de formação da autoestima e do entendimento de si próprio. Se me vejo representada, tenho um elemento a mais para me aceitar como sou e, principalmente, ter orgulho de quem eu sou.

Na contramão desta discussão, entretanto, está aquilo que chamaremos aqui de “grande publicidade”. A grande publicidade perpetua, exalta e idolatra o padrão. Quanto mais magra, melhor. Quanto mais branca, melhor. Quanto mais alisado o cabelo, melhor. Quando mais alta, melhor.

Só que daí a gente chega num pequeno problema: como publicizar produtos midiáticos que fogem a esse padrão? Como manter a coerência das obras e fugir dessas amarras? Aparentemente parece uma tarefa fácil, não é mesmo? Mas vamos te mostrar que não é tão fácil assim. Confira alguns exemplos de séries que contaram com uma publicidade completamente desconexa da mensagem que passam.

Grace and Frankie
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Uma série que tem como premissa mostrar que mulheres acima dos 40, 50, 60, 70 estão vivas. Uau, que inovador! Pois é, não deveria. Basta olhar para o lado e perceber que somos crianças, jovens, adultos e idosos. Se é tão comum a nossa diversidade etária, porque raios os meios de comunicação só focam na ~eletrizante~ vida dos jovens – principalmente quanto o assunto é mulher? Pois é, é o bendito padrão novamente.

A série produzida pela Netflix conta com duas mulheres protagonistas no auge dos seus 70 anos. As duas personagens são mostradas em toda plenitude, com seus altos e baixos e com uma carga significativa de realidade. Já os cartazes divulgados da série fazem de tudo para esconder rugas aqui, marcas de expressão acolá…

Oras, se a premissa da série é mostrar justamente que mulheres mais velhas existem e que podem, sim, protagonizar ótimas histórias, por que diabos sua principal peça de divulgação precisa “photoshopar” as personagens?

 

Gilmore Girls

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Gilmore Girls, série estreada em 2000 e finalizada em 2007, ganhou um revival e deixou seus fãs cheios de alegria com o retorno. Bem pertinho do lançamento dos quatro novos episódios produzidos pela Netflix, algumas imagens promocionais foram divulgados.

Uma década depois da data do cancelamento da série, Lorelai Gilmore, uma de suas protagonistas, surge com a aparência tão jovem que até ficou difícil perceber que a imagem se tratava da nova versão do show. E o pior é que os novos episódios vieram com o intuito justamente de mostrar em que a pé a história estava na atualidade.

A aplicação de photoshop para deixar as protagonistas novinhas foi tanta que um grupo de fãs se revoltou e encheu a página da Netflix e da série de questionamentos sobre o fato. Pegou mal, viu, Netflix?

 

Drop Dead Diva
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Imagina que louco seria ter uma série em que a mulher gorda é protagonista? E mais, em que ela é uma protagonista forte, dona de si, cheia de autoestima? Último detalhe: uma protagonista gorda cujo seu maior objetivo na vida não seja emagrecer? Parece um sonho, não é mesmo?

Essa é Drop Dead Diva, série de 2009 produzida pelo canal Lifetime. Tudo ia muito bem, até que concluímos com uma simples busca no google que os  cartazes de divulgação do show emagrecem a protagonista no photoshop de forma severa.

 

You Me Her
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Uma série que questiona o padrão amoroso vigente na sociedade. Assim é You Me Her. Trazendo uma mensagem positiva sobre a possibilidade de novas formações amorosas, a série é bem interessante e realmente mostra alguns percalços pelos quais pessoas que buscam ou acabam se vendo em um relacionamento de poliamor passam.

Emma e Jack são um casal heterossexual padrão que se encontram em um relacionamento já esmagado pelo tempo e pela rotina. Situações os levam a encarar a realidade de que há uma terceira pessoa neste relacionamento. E ao contrário do que podemos deduzir ao olhar a publicidade cretina feita para divulgação da série, o casal de comum acordo resolve passar por isso.

O desconforto está na forma como a imagem usada para divulgar a série deixa a entender que o homem vai sobrar, ou seja, que a série se trata de um envolvimento entre duas mulheres, apenas. A tática não é nova, na verdade, e é conhecida como queerbaiting. O termo se refere a tática usada por narrativas que deixam a entender que personagens do mesmo sexo terão um relacionamento apenas para fisgar a atenção do público LGBT+ do público em geral interessado na visibilidade de relacionamentos homossexuais.