A coluna Personagem do Mês apresenta quatro textos (um por semana) sobre uma personagem escolhida pela equipe do Séries Por Elas. Esses textos seguem a seguinte lógica:
1ª matéria: conta a trajetória da personagem e explica por que ela mereceu ser a personagem do mês
2ª matéria: mostra o que podemos aprender com a personagem e o que é melhor deixar pra lá
3ª matéria: buscamos inserir a personagem no contexto do blog, fazer link com empoderamento e feminismo
4ª matéria: vamos falar pouco da atriz. Curiosidades, declarações importantes e fofoquinhas saudáveis

Mad Men é a história de uma década cheia de transformações. Sendo assim, a trajetória das mulheres e a conquista de direitos não poderia ficar de fora. É nesse contexto que se insere a personagem Margaret “Peggy” Olson.  Peggy, uma inocente menina do Brooklyn, entra na agência de publicidade Sterling Cooper como secretária, num momento em que as mulheres, predominantemente brancas, se inseriam no mercado de trabalho. Ela começa como secretária particular de Don Draper. Sua função central, assim como de todas as secretárias daquele escritório, é ser uma espécie de esposa ou mãe substituta. Além de organizar a agenda do seu superior, deve também atender suas necessidades pessoais, como dar-lhe aspirinas para curar uma ressaca irresponsável.

Algumas secretárias tinham atribuições mais extremas, como envolvimento sexual com o chefe. O que fica explícito logo no primeiro episódio, quando Peggy vai ao ginecologista, a pedido de Joan, requisitar a pílula anticoncepcional. Até nesse momento é perceptível que o debate sobre controle da mulher sobre o próprio corpo e a libertação sexual tinham um significado distinto para os homens, que podiam ter relações extraconjugais sem correr o risco de ter uma amante batendo a porta nove meses depois. É nesse ambiente de trabalho disfuncional que Peggy chega para trabalhar. Ela é uma completa iniciante no meio de tanta gente calejada pela rotina maluca da agência. E as pessoas percebem isso. Alguns a tratam com desprezo e deboche pelo fato dela não corresponder ao padrão de beleza da época. Afinal, as secretárias eram um importante item do acervo masculino.

Mas nessa mulher desconectada e que não se encaixa no ambiente hostil, se revela um grande potencial para a área de criação da Sterling Cooper quando durante um teste de uma marca cliente do escritório, Peggy tem um surpreendente insight. Sua ideia despretensiosa acaba se tornando uma das principais linhas da campanha do produto. A partir daí, vemos o início da brilhante história e carreira da personagem. Porém nada foi fácil para Peggy.

Ela teve que provar, assim como outras personagens femininas da agência, seu valor e sua capacidade de trabalhar entre os peixes grandes da Sterling Cooper. Afinal, a simples presença de uma mulher em cargo mais elevado pode causar danos no frágil ego masculino. No campo pessoal, tomou a polêmica e difícil decisão de entregar seu filho para sua família criar para que ela pudesse permanecer prosperando na carreira. Isso tornou ainda mais fria sua relação com a mãe e a irmã. E teve incontáveis affairs. Peggy foi descobrindo seu potencial, ganhando confiança e percebendo que a submissão aos que a rodeavam não era uma alternativa viável se ela quisesse prosperar.

O caminho foi duro e longo para que Peggy construísse uma boa reputação na área de criação e ganhasse o respeito do seus colegas, até conseguir se tornar chefe de redação, a primeira mulher da agência a exercer o cargo. Ela precisou se libertar de muitas amarras para vivenciar as pequenas brechas que as transformações da década permitiram que fossem abertas. As transformações daquela época ainda têm reflexo no presente. Ainda hoje o mercado impõe barreiras que variam dependendo do gênero, raça e classe aos quais a pessoa pertence.

Peggy Olson.