one day at a time temas

One day at a time é dessas séries que você começa a assistir de forma despretensiosa, para dar boas risadas e passar o tempo. 20 minutinhos cada episódio, não te ocupa muito tempo, a série evolui rápido… Aquele tipo de conteúdo que muita gente assiste com um olho na TV e outro no celular, no livro, na conversa com alguém.

Mas acredito que nem aos olhos mais desatentos passaria desapercebida a incrível capacidade que o texto dessa série tem de tocar na ferida; de falar o que precisa muito ser dito entre uma risada e outra e, ao final, te deixar com aquela cena, aquela fala na cabeça.

E se você, assim como eu, assistiu um episódio atrás do outro, viu ainda mais forte que essa estratégia não era usada pontualmente; não era em um episódio ou outro… Eu, uma viciada em séries, que achava que já tinha visto de tudo e que nada mais me surpreenderia, me vi boquiaberta ao perceber como o humor foi usado tão brilhantemente à favor do social. Como rir foi a forma usada para conscientizar. Como o exagero, o estereótipo, o tradicional, foi usado para causar reflexão sobre o mundo em que vivemos.

E se você precisava de algum motivo para assistir One day at a time, eu te dou oito!

Machismo de cada dia

A série retrata o machismo em todas (ou quase todas) as suas faces. A começar pela protagonista, Penélope, que cuida da família sozinha. Ela enfrenta as dificuldades de uma mãe que não tem ajuda financeira e psicológica do pai de seus filhos. É ela quem precisa bancar a casa, lidar com as mudanças dos filhos, ter a famigerada conversa sobre sexo, levar ao médico… Ao pai? Nenhuma de suas responsabilidades lhe é cobrada. Essa história é mais familiar do que gostaríamos. Grande parte das mães solo também arcam sozinhas com as consequências de criar (às vezes, muito maiores do que as de bancar) seus filhos.

Mas a série também trata da diferença salarial que existe entre homens e mulheres que exercem a mesma função. Por lá, Penélope conseguiu mostrar seu valor e teve o devido reconhecimento. Na vida real, ainda vemos muitas empresas que não valorizam seu quadro feminino de funcionários e que, inclusive, evitam contratar mulheres pelo simples fato de que elas engravidam.

E se para você, o termo “mansplaining” é desconhecido, saiba que é aquela irritante mania masculina de falar algo absurdamente óbvio como se você não soubesse e ele estivesse lhe fazendo o grande favor de te ensinar. Chato, né? É! E todas as mulheres passam por isso. Toda hora! O tempo todo!

Pai, irmão, colegas de trabalho, chefe, prestadores de serviço (ainda mais se for um serviço como mecânica, reforma/construção, tidos como culturalmente masculinos). Muitas mulheres ainda nem sabem que isso é algo muito maior do que um costume.

Isso é uma forma de manipulação, de tentar minar sua confiança, como se você não soubesse do que fala. Pois, de forma bem didática (assim como os homens gostam de fazer), One day at a time estava lá pra explicar tim tim por tim tim que você não precisa aceitar esse tipo de comportamento!

Homossexualidade na adolescência

A vida pode estar um pouquinho mais fácil para quem é homossexual, é verdade. Mas o “se descobrir” ainda é um momento delicado, principalmente quando ele acontece na adolescência. São tantos questionamentos, tantas dúvidas, medos…

E foi isso que a gente viu, de forma muito genuína, na série. Helena desconfiava, mas tinha medo de assumir para si, para a mãe, para a avó religiosa… A mãe não sabia lidar, tinha dúvidas, queria o bem da filha, mas se sentiu pega de surpresa… Foi realmente um momento muito bonito, em que você entende que não é fácil, mas que  no final, elas escolhem o amor. A mãe pede ajuda à colega que é lésbica; a avó usa as próprias palavras do Papa Francisco para se lembrar que só Deus pode julgar e que é preciso amar ao próximo.

“Sobre os gays o papa disse: ‘Quem sou eu para julgar?’. E o papa representa Deus”

“Porque ela é minha neta e eu a amo independente de qualquer coisa. Então me diga, quando é a próxima Parada Gay?”

E aos que se recusam a entender, a aceitar e até mesmo a respeitar, a melhor resposta é sempre se amar. É ter certeza do seu valor e de quem você é; é estar cercada daqueles que te amam e nutrir esse cerco para que eles estejam sempre ali. E usar essas pessoas para aprender a cair, mas também a levantar. Sempre!

Por usar uma linguagem leve e descontraída, o seriado permite que muitos telespectadores recebam essa história menos armados, sem achar que estão sendo “catequizados”. E assim, aos poucos, eles conseguem olhar além, entre uma risada e outra.

Xenofobia

Infelizmente, esse é um dos males que mais vemos crescer na nossa sociedade atualmente, principalmente com a onda de migração da população de países africanos para a Europa.

A série, que trata sobre a vida de uma família de origem cubana que mora nos Estados Unidos (e vive no prédio de um canadense), por isso, foca bastante nos estereóticos e nos preconceitos vividos por latinos na terra do Tio Sam.

Os estadunidenses (sem querer generalizar, mas já generalizando…) criaram e alimentam essa ideia de que todos os latinos são iguais e a mesma coisa – no caso, mexicanos. E isso de colocar todo mundo na mesma barca sem tratar das individualidades, sem pensar nas pessoas como um povo, com história, proveniente de um país que também de história e do qual essas pessoas se orgulham, no fim, é uma tentativa de reduzi-los a uma coisa só: latinos.

E ao mesmo tempo que colocam todos no mesmo balaio, tentam, com a própria cultura, delimitar a nossa. Nos fazer menos barulhentos, menos emotivos e passionais, mais contidos no gesticular…

Outro ponto muito importante da série é desmistificar a ideia de que se mudar da sua casa, do seu país, é sempre um sonho, ou uma decisão fácil. Às vezes, é sim. Como vemos com o personagem do Schneider, o proprietário do prédio em que a família vive.

Ele, como canadense que decidiu viver nos Estados Unidos, tem toda uma percepção diferente do que é ser imigrante. Ele não precisou pregar os piores empregos, ninguém manda ele “voltar para o México”, nem implicam com o traços culturais dele.

Mas na maior parte das vezes, a imigração é uma necessidade. É uma tentativa desesperada de ter um futuro melhor. Para muitos, inclusive, é a chance de ter algum futuro.

E em uma época em que o presidente da maior potencial mundial fala em construir um muro em suas fronteiras, em que deportações estão sendo feitas aqui e ali… A série, mais uma vez, resolveu dar aquele famoso tapa com luva de pelica. Parece engraçado, irreal… Mas quando acaba você apenas pensa: quando será que vai começar?

“Imigrantes, nós somos os verdadeiros trabalhadores”

Transtornos psicológicos não são brincadeira!

Mas para muita gente ainda são. Quantas vezes não escutamos “na minha época isso não existia“, ou “isso era falta de ocupação“? Não importa se na sua época era assim. Há muitos anos, negros tinham lugares demarcados ao final dos ônibus, mulheres não podiam votar… Imagina se nada tivesse mudado? Se antes, depressão e ansiedade eram coisas de gente fraca, hoje é coisa de gente que precisa muito de ajuda.

E em nada adianta, como podemos ver com o comportamento de Lydia com relação à filha, Penélope, você pressionar a pessoal para que ela resolva por conta própria os medos que assolam a vida dela. Na verdade, a pressão para que isso aconteça só piora a situação. Mais do que amor e carinho, essas pessoas precisam de ajuda profissional.

A realidade dos veteranos de guerra

Esse é um tópico bem americano, ou pelo menos, foge bem à realidade brasileira. Mas por lá a sociedade vive uma situação bem delicada em que muitos soldados voltam da guerra e não conseguem retomar suas vidas. Depressão, ansiedade, culpa e sequelas físicas (que acabam levando às mentais) são algumas das coisas que sobram para os veteranos quando chegam em casa.

Boa parte deles precisam de acompanhamento psicológico e muitas vezes não são incentivados a isso, ou se negam, afirmando que não têm motivos para tal acompanhamento. Outros têm vergonha, como é o caso de Penélope, ex combatente e que, de vota a sua casa, precisa de seus medicamentos para conseguir levar uma vida mais tranquila.

As consequências dessa negação toda? Muitos desenvolvem problemas com alcoolismo, depressão, síndrome do pânico e de perseguição.

Armamento para civis

Depois do último massacre ocorrido em uma escola americana, que mais uma vez reascendeu a discussão sobre a facilidade com que estadunidenses podem adquirir armar no País, nada mais apropriado do que lembrar como One day at a time abordou de forma tão delicada o assunto.

Ao invés de só falar “não é bom ter armas em casa“, a narrativa optou por envolver o telespectador em uma história que envolve adolescentes, uma veterana de guerra que trata sua depressão e ansiedade, uma adolescente que recém abriu sua homossexualidade e ainda enfrenta a rejeição do pai.

Assim, eles criaram desde o começo, sem que a gente percebesse, um lar comum, como o meu e o seu, e nos mostraram que naquele ambiente, arma não é uma boa ideia. E se você pensar um pouquinho mais, provavelmente no seu também não seja.

Os maiores acidentes acontecem com quem acha que tem controle, que sabe usar, que esconde muito bem dos filhos… Números esses que o governo trata como exceção, mas que se tornam cada vez mais comuns e destruidores.

Colorismo

Esse é um conceito que diz que quanto mais próxima a pessoa de uma outra raça for à imagem do homem (no sentido amplo da palavra) branco, maiores são os privilégios sociais dos quais elas gozam.

Ou seja, uma pessoa negra de pele clara (chamadas de morenas) tende a sofrer menos preconceito, pois aos olhos da sociedade, ela está miscigenada, mais enbranquecida. Mas o mesmo acontece quando ampliamos esse leque.

Na série, vemos Papito, filho de Penélope, que assim como a mãe e a avó, tem traços bem característico dos latinos. Em um episódio, ele retrata bem o preconceito que sofre por parte dos colegas de escola e de algumas outras crianças. Helena, sua irmã, por sua vez, não se recorda de ter passado por isso. Então, sua mãe explica que, a filha, por ter a pele branca, traços finos, não passa pelos mesmos constrangimentos e preconceitos que o irmão passa.

Confusa, a garota quer manter suas raízes, mas não entende o que pode fazer. Entende os seus privilégios, mas não quer perdê-los – além de não saber o que pode fazer para que o irmão possa gozar dos mesmos.

A imposição do padrão de beleza

Helena e Lydia contracenam vários dos momentos mais bonitos da série. No que diz respeito à imposição de padrão de beleza, particularmente me agrada muito: uma aprende com a outra e elas tornam-se confidentes.

Enquanto a neta se sente bonita e confortável sem maquiagem, a avó, que nem o marido viu sem maquiagem, só se sente segura de si quando está devidamente pintada. Contraditório, não é mesmo? Mas essa é a graça do ser humano. O importante é conseguir se abrir para o que o outro tem a falar. É entender que a realidade dele, os sonhos, o que almeja, é e pode ser diferente do que para você.

Seguir esse padrão de beleza imposto às mulheres é doloroso e surreal. É o famoso impossível, afinal, sempre vai faltar alguma coisa: dois quilinhos, uma depilação, uma hidratação… O importante é estar bem consigo é sentir que o que você faz (independente do que seja), te faz bem.

E em meio às risadas, vamos vendo que One day at a time tem muito o que ensinar. E sem perder a leveza!