O seriado Lost, criado pelo aclamado e inovador produtor J.J. Abrams, em conjunto com Jeffrey Lieber e Damon Lindelof, teve seu último episódio apresentado em maio de 2010, depois de seis temporadas. À época, as discussões a respeito de assuntos ligados à gênero e representatividade na TV ainda engatinhavam na web.

A série, que retrata a vida dos sobreviventes à queda de um avião em uma ilha cercada de mistérios, traça um arco de história independente para casa personagem considerado importante ao desenvolvimento do todo. Dentre estes protagonistas, encontra-se Kate Austen (Evangeline Lilly). Inicialmente retratada como forte e corajosa, caiu nos clichês de roteiristas hollywoodianos quanto ao papel que uma mulher deve desempenhar nesse tipo de programa.

Não, Kate não estava entre as personagens femininas que têm seus textos limitados à falas sobre homens. Afinal, deveria ser uma mulher diferente, que fugia dos padrões de heroínas apresentados até então. Não deveria ser fútil a tal ponto – pois, supostamente, é assim que mulheres gastam seu tempo na vida real: resumindo suas existências às existências de homens. O que eles gostam e não gostam. O que eles procuram em uma mulher ou o que os desagrada em uma mulher.

Kate não era assim. Kate era badass. Fodona, mesmo!

Mas nem tanto. Afinal, o que seria dos homens da série se uma única mulher lhes tomasse o papel do líder, do herói ou do astuto cérebro da turma, não é mesmo?

É demonstrado, ainda na primeira temporada, que Kate tem um passado questionável que sustenta o mistério proposto pelo enredo. Até aí nada de errado. Da mesma forma que os demais sobreviventes, a mulher tem esqueletos escondidos no fundo do armário. Nada nela remetia à uma criminosa, o que ela se revela ser no que eles chamam de “antes da Ilha”.

Essa proposital discrepância entre aparência de mocinha versus passado criminoso, pode ser considerada um acerto dos roteiristas no desenvolvimento da trama. Por outro lado, também é o gatilho inicial para um declínio significante de personalidade da personagem. Na ilha, Kate era a mulher dos sonhos até tornar-se uma pária para Jack Shephard (Matthew Fox), líder dos sobreviventes, estereótipo de “homem dos sonhos” e interesse amoroso da mulher.

Para Jack, sendo uma criminosa, Kate não se encaixava mais nas expectativas que criou sobre ela. É mostrado, durante a linha do tempo que explora os acontecimentos que os levou até ali, que o médico é o tipo de homem que busca mulheres que inspiram cuidado. A justificativa é a extrema responsabilidade que ele tem com os demais, quem quer que seja. E pode até ser isso, visto que ele sempre tomou as rédeas durante as situações de caos em que se viram na Ilha, não é o que vem ao caso no momento. Porém, a linha que separa responsabilidade/cuidado de manipulação/controle é muito tênue.


“Tenho fotos melhores do que essa.
E menores também, se você quiser algo para sua carteira.”

A partir disso, Jack muda completamente de comportamento com Kate, apesar de manter sua personalidade de bom moço intacta, pois ela era uma criminosa. Ela não era confiável. Ela não estava à altura para ser seu interesse amoroso. Ela não era manipulável. Ou não deveria ser.

Contudo, em diversos momentos da história, vê-se a voz e as ações de Kate diminuindo em uma tentativa de agradar Jack, em um suposto desejo de mudança da vida que tinha “antes da Ilha” para a que queria “depois da Ilha”. A personagem simplesmente passa a aceitar as ordens do líder do grupo sem questionamentos. Como se não tivesse opinião própria. Divergindo da mulher enérgica que se via no início da série.

Além disso, é possível perceber que, em alguns momentos, Kate serve de trampolim para o desenvolvimento dos homens da história. Os roteiristas a colocavam em situações que ela precisava ser salva por um homem, para demonstrar a bravura e o heroísmo deles. Isso quando tudo o que a personagem prometia era independência e chutes em traseiros – masculinos e femininos. Mas não, Kate nunca se saía bem em um conflito sem a ajuda de um homem, fosse ele Jack, Sayid (Naveen Andrews), Sawyer (Josh Holloway) ou Locke (Terry O’Quinn).

É o caso do episódio “Digite 7-7″, da terceira temporada. Após ganhar uma tapa no rosto, Kate só não tem um destino desastroso graças a Sayid. Mesmo com o braço lesionado, ele consegue ter um desempenho melhor do que o da mulher em cena. Dessa forma, como não poderia deixar de ser, Kate adentrou em um triângulo amoroso com Jack e Sawyer. Um clichê que não poderia faltar em uma série com tantos personagens a explorar.

O ranzinza e, às vezes detestável, mas espirituoso Sawyer, pode ser interpretado como a versão masculina e mais egoísta da mulher. Ele não era o antagonista, mas também não era o mocinho. Sempre entrando em conflito com algum membro do grupo de sobreviventes. Na verdade, conforme seu passado foi sendo revelado, ele ganhou cada vez mais espaço. Um processo de redenção, de mudança para melhor. Apesar de a série deixar claro que ele não era o mocinho, representado em Jack.

Assim, é gritante a maneira contrastante como as tramas de Kate e Sawyer – sem contar o interesse romântico mútuo entre eles – foram tratadas pelos escritores. A relação de Kate e Jack nunca mais foi a mesma depois da descoberta de seu passado. Ele ignorou tudo que já sabia sobre ela em nome de seus defeitos. Mas a vida também questionável de Sawyer, poderia facilmente ser deixada de lado. Isso em nome do bom coração que ele demonstou ter sob a máscara de egoísmo e frieza. Kate não, Kate foi apenas mentirosa, como uma mulher deve ser.

Além de Kate, as personagens Sun (Yunjin Kim) e Jin (Daniel Dae Kim), retratam um relacionamento que começou como “unidos venceremos” devido a diferença de classe social entre eles. Mas com o tempo, ganhou traços mais fortes de abuso. E foi justificado na série pela crença cultural sul-coreana da superioridade do homem sobre a mulher. Jin controla suas roupas – mesmo na Ilha, Sun deve manter-se vestida-, suas amizades, suas opiniões. E, em uma clara atitude abusiva, a faz se sentir culpada quando descobre que a mulher sabia falar inglês. Ela aprendera a língua quando alimentava intenções de fugir do marido e de sua personalidade abusiva, antes da Ilha.

Contudo, ao primeiro sinal de independência de Sun, o que tornava seu arco cada vez mais interessante, esta regride com a personagem necessitando subitamente do perdão do marido por ter lhe escondido algo “tão grave”. Jin, por sua vez, tem uma brusca mudança de personalidade e crença. Torna-se mais liberal, em uma romantização desnecessária das atitudes de seu personagem. Incentivando, inclusive, as mulheres expectadoras a perpetuarem a mentalidade de que são capazes de mudar um homem quando querem, quando são capazes ou “mulher o suficiente”. Como se na vida real, homens abusivos fossem suscetíveis e abertos a diálogos daquela forma e, além de tudo, alastrando a cultura de que “o amor tudo suporta”.

Existem vários outros exemplos de mulheres erradamente retratadas em Lost. Como Ana Lucia (Michelle Rodriguez), que sequer foi cogitada como interesse amoroso de Jack. Ela não apresentava a vulnerabilidade exigida por ele em suas pretendentes. Ele a encarava como igual. Mas para tanto, ela precisava apresentar “características masculinas”. Ana Lucia não tinha aparência delicada. Era policial e não alimentava certo deslumbre por Jack (algo que parece ser necessário para despertar o interesse do mesmo). Exatamente por isso, um rápido laço de amizade se formou entre os dois.

Kate, ao contrário, jamais foi encarada dessa forma. Não devido a uma atração ou amor à primeira vista (isso existe?), o ponto central é que ele nunca viu em Ana Lucia alguém em potencial para manipular em sua fragilidade e, por isso, ela podia ser tratada de igual para igual.

Anna Lucia Lost
A atriz Michelle Rodriguez no papel de Ana Lucia

De lá para cá, não há como negar que a forma de representação das mulheres para televisão mudou. Seriados e novelas têm retratado mulheres em posição de poder. Mulheres que não têm suas tramas girando em torno de homens. Personagens femininas com várias camadas de personalidades, humanas tanto quanto merecem. Entretanto, fica o ressentimento por Kate, uma personagem que tanto prometia, ter sido relegada àquela que cede suas posições para satisfazer a vontade masculina.

Não é amor, é submissão feminina velada e convenientemente propagada.