Derek Shepherd machismo

Desde o fatídico episódio em que Derek Shepherd disse adeus em Grey’s Anatomy, fãs inconformadas do mundo todo pedem sua volta e criticam a postura de Shonda Rhimes pela morte do personagem. Os viúvos e viúvas do maior neurocirurgião de Seattle – e e até mesmo dos Estados Unidos – ainda enchem de comentários cada foto publicada por Ellen Pompeo e por Patrick Dempsey em suas contas pessoais no Instagram, desde 2015, quando a cena foi ao ar.

O curioso é notar como a personagem de Meredith Grey se sobressaiu, cresceu e se tornou a protagonista ainda mais forte que todos amamos. Tudo isso porque ela deixou de estar à sombra daquele que tentou ofuscá-la e ofuscou, em tantos momentos. Sim, caras (os) leitoras (os). Derek Shepherd, com seu topete perfeito, olhar sedutor e talento internacional, infelizmente, não era tão bom. Ou nada bom, pois Derek Shepherd não é o sol.

Há de se notar que os detalhes não nos saltam aos olhos de primeira, ou pelo menos não para mim, com toda a carga machista que está enraizada em meu DNA. Eu precisei rever a série para entender e analisar os atos do protagonista, para desmitificar o frenesi coletivo de que Derek é o homem ideal para Meredith.

Tudo começa quando Shepherd não é sequer capaz de contar à Meredith que é casado antes de se envolver com ela. A pobre só descobre a existência de Addison Montgomery no fim da primeira temporada, quando já estava completamente envolvida com o neurocirurgião. Como se não bastasse toda a mentira dele, Meredith ainda tenta fazer com que ele a escolha (lembram das famosas frases “Choose me. Pick me. Love me.”?), mas Derek faz um jogo com as duas e acaba escolhendo a esposa, que ele humilha diariamente por tê-lo traído. Ele não era o homem ideal nem mesmo para Addison.

Meredith decide seguir em frente e volta a fazer tudo o que uma mulher solteira quer fazer, como sexo com outros homens, por exemplo. Derek Shepherd é o primeiro a criticá-la, num típico exemplo de homem machista e babaca: eu não quero, mas ninguém pode ter! A resposta de Meredith ao insulto é categórica: “I make no apologies for how I chose to repair what you broke. You don’t get to call me a whore.” (Eu não vou me desculpar pela forma que eu escolhi para reparar o que você quebrou. Você não tem o direito de me chamar de vadia, em tradução livre).

Derek sempre foi competitivo e ambicioso e demonstrou isso quando tenta ascender ao cargo de diretor do hospital e essa é uma característica interessante do personagem, afinal, não há mal algum em quer subir na vida. No entanto, essa competitividade só existe quando se trata de outros homens. O neurocirurgião nem sequer considera que Meredith possa ser tão boa quanto ele um dia. É importante relembrar sobre a pesquisa que os dois fizeram sobre o tratamento para o Alzheimer, porém, somente Derek levou os créditos. Mas, quando Grey resolve adulterar os rumos da pesquisa para favorecer Adele Webber, é nela que Derek desconta toda a sua raiva, o que culmina em Grey tomando outros rumos profissionais.

Ainda que tenha crescido cercado por quatro irmãs e tenha tido que cuidar de sua mãe depois que seu pai faleceu, Derek também não oferece chances para que Amelia Shepherd cresça como ele. Quem assistiu a Private Practice consegue entender melhor o drama da neurocirurgiã, mas não é difícil perceber que Amelia merece outra chance depois de ter mergulhado no mundo das drogas. Mas o irmão a veta, humilha e rebaixa a todo instante. É de se notar também como Amelia cresceu depois que Derek saiu da trama.

Derek Shepherd não era de todo ruim, obviamente. Quando ele e Meredith decidem começar uma família, o médico se dedica para dividir todo o trabalho com a esposa, mas chega num ponto crítico da relação dos dois: promete que irá dar uma pausa na carreira para que a esposa possa ascender e, claro, não deixa seus ideais de lado. Ele decide que irá se mudar para o outro lado do país e deixar Meredith em Seatlle. Uma das cenas mais marcantes desta fase da série se dá quando ele a pede que assine documentos para assumir outro cargo em Washington e nossa heroína declina.

Derek Shepherd não é o sol. Hoje, temporadas depois de sua saída, cada vez fica mais claro como o personagem já havia cumprido seu papel na vida dela. Mas não pode ser adorado e colocado como parte fundamental da vida da médica. Derek foi sim marido amoroso e pai dedicado, mas uma verdadeira pedra no caminho de Meredith, profissionalmente, como sua amiga 

Christina Yang sabiamente alertou: “He is very dreamy, but he is not the Sun, you are!”. A cardiologista, mais do que ninguém, estava apta a abrir os olhos de Meredith depois de sua longa jornada sendo oprimida por Burke e Hunt.

O futuro de Meredith ainda é incerto, diante de tudo o que houve no fim da 13ª temporada. Esperamos não ter que escrever outro texto sobre nenhum homem que a impede de ser o sol em todos os aspectos da vida dela.