Texto originalmente publicado no site da Trip

Cara Gente Branca (Dear White People) estreou na última sexta-feira (28) na plataforma de streaming Netflix e seu lançamento deu menos o que falar do que deveria. A série é sobre um grupo de estudantes negros enfrentando o racismo estrutural de uma universidade americana elitista, ou seja: majoritariamente frequentada por pessoas brancas. Em seus dez episódios, o lançamento retrata a conjuntura racista em que vivemos e evidencia esse fato mediante o uso da representação tanto de micro quanto de macroagressões.

Logo após a estreia, comentei sobre a importância do protagonismo negro da série no texto “Cara Gente Branca: uma luta pela igualdade de direitos“, mas depois da publicação uma discussão muito importante levantada no texto “Dear White People e o silêncio ensurdecedor da internet” me chamou a atenção. Gabriela Moura, a autora do texto, tocou em um ponto delicado e devastador: por que o frenesi criado nas redes sociais para a estreia de 13 Reasons Why não chegou nem perto do provocado pela estreia de Cara Gente Branca? Se os dois temas (o suicídio e o racismo) são urgentes, qual seria o motivo da repercussão desigual?

Neste aspecto, podemos perceber duas nuances. A primeira se refere ao próprio engajamento dos espectadores em relação à série (no caso de 13 Reasons Why, por exemplo, houve uma comoção muito grande com tags no Twitter, depoimentos em todas as redes sociais, jornais e revistas repercutindo o tema). A segunda nuance é mais institucional e diz respeito à divulgação da Netflix, que está sendo bem fraca  (em comparação às outras séries já lançadas) e não apostou em estratégias de publicidade nacional, tática usada em shows como Orange is The New Black, The Get Down, Santa Clarita Diet e 13 Reasons Why.

A questão é que Cara Gente Branca toca em feridas abertas e extremamente dolorosas que se encontram no cerne da formação do povo brasileiro. Trata-se de um assunto que, dentre os assuntos já maltratados pela sociedade, encontra-se em posição de liderança. Se para alguns é difícil aceitar que somos uma sociedade estruturalmente racista, imagine só como é a vida da nossa população negra cujas vivências racistas são cotidianas, sejam elas escancaradas ou não? E ainda que a série se trate de uma realidade norte-americana, diversas de suas questões trazidas pela narrativa podem ser facilmente percebidas na realidade brasileira.

Toda essa polêmica deixa muito clara a real necessidade de discutir questões relacionadas ao racismo no nosso país. E se a Netflix dessa vez não fez o dever de casa direitinho no que diz respeito à divulgação do show, nós vamos fazer o que tiver ao nosso alcance para promover essa série tão importante. Por isso, levantamos 10 temas importantíssimos abordados por Cara Gente Branca e que podem gerar reflexão, contribuir para a desmistificação do tema e, quem sabe, ampliar a empatia para importantes bandeiras de luta negra neste país.

 

Racismo estrutural

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O racismo não está somente em insultos, xingamentos e violações de direitos claros. O racismo estrutural está em tudo o que nos constitui enquanto sociedade, está na nossa linguagem, nos nossos costumes e crenças. E isso é um tema amplamente abordado pela série durante todos os episódios. Não acho que foi por acaso, inclusive, que alguns dos personagens de mais poder e respeito da série, o reitor da universidade e seu filho, sejam homens negros. Para mostrar que a existência dessas pessoas não comprova a suposta ausência de racismo em que muitos querem acreditar. Todos os personagens negros da série fazem parte de uma universidade que é a elite intelectual americana. Todos altamente educados e aculturados, mas nem por isso imunes à violência policial, ao descaso da administração e até mesmo ao preterimento amoroso. Além disso, a escolha de não mostrar apenas situações em que o racismo se expõe em sua faceta mais explícita, mas também mostrá-lo em microagressões, foi fantástica. Um olhar torto, uma insinuação, um cerceamento brando… Tudo isso está arraigado em nossa cultura e deve ser combatido cotidianamente.

 

Solidão

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A Solidão Da Mulher Negra é um tema pesquisado por diversos grupos de estudos país afora e se trata de uma constatação real e devastadora: o número de mulheres negras sozinhas no Brasil é alarmante. Muitos fatores contribuem para o fato: mulheres negras são preteridas por homens negros (para eles estar com uma mulher branca significa uma forma de ascensão) e por homens brancos; são tidas como “mulata-exportação”, tendo seus corpos hipersexualizados e desejados apenas para fins sexuais; lideram o número de mães solo, evidenciando a triste realidade do abandono afetivo e também paterno. A temática da solidão é abordada pela série em um episódio focado na personagem Coco (Colandrea) de forma exemplar. A série mostra a personagem sendo preterida e deixa claro que o problema estava no fato dela ser negra.

 

Colorismo

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Colorismo ou Pigmentocracia é o nome que se dá para a discriminação pela cor de pele e é algo muito comum em países que foram colonizados por europeus e que passaram pelo processo da escravidão. De forma simples, podemos definir que quanto menos pigmentada a pele da pessoa negra for, menos racismo ela vai sofrer ao longo da vida. Esse “privilégio” é tema de discussões entre as protagonistas Sam e Coco. Coco, que tem a tonalidade de sua pele mais  pigmentada, em um discurso inflamado e sincero explica à Sam, cuja pele é menos pigmentada, que esse fator é decisivo quando situações racistas vem à tona. É claro que as vivências racistas de cada pessoa são únicas e não estamos dizendo aqui que há uma possibilidade de dizer que alguém é “mais negro” do que outra pessoa, mas sempre vale a pena pensar sobre nossos privilégios para construirmos uma realidade menos racista para todos.

 

Violência policial

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A violência policial contra pessoas negras é algo alarmante e que já fez gerar movimentos enormes e conscientes como o Black Live Matters nos Estados Unidos. Trazendo para a realidade brasileira, o número de pessoas negras e brancas mortas em operações policiais é discrepante e Cara Gente Branca soube aproveitar a temática de maneira bem assertiva e tocante em uma das suas cenas mais tensas e angustiantes da temporada.

 

Empoderamento estético

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Não é fácil ser uma mulher negra ou um homem negro e manter-se com a autoestima lá no alto em uma sociedade onde ser branco – ou ter as características definidas como brancas – são exigidas a todo momento. Diversos fatores podem ser abordados neste ponto: a falta de representatividade na mídia, os escassos meios de empoderamento estético e até mesmo o número reduzido de cosméticos e acessórios adequados às realidades negras podem ser apontados como um início de conversa neste assunto delicado. Cara Gente Branca teve a sensibilidade de trazer essa temática à tona com duas de suas personagens: novamente a Sam e a Coco. As transições estéticas pelas quais as duas passam juntamente com as questões advindas desses procedimentos são exibidos ao longo dos episódios e as duas personagens percorrem um caminho interessante para se sentirem bonitas e aceitas.

 

Apropriação Cultural

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Este é um tema árido e de compreensão dificultada por desinformações compartilhadas à exaustão pelos espaços da internet. Por ser uma série que se trata da temática do racismo, é claro que a Apropriação Cultural não seria deixada de lado. Durante uma apresentação artística, Sam e Reggie discutem sobre o quanto aquela expressão se apropriou de diferentes culturas. A cena tem uma tonalidade leve, mas o assunto é sério e que bom que foi abordado.

Militância e cobrança

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Ser militante não é tarefa fácil, independente da causa. E isso é mostrado com excelência pela série. Sam é uma ativista que luta no Movimento Negro engajadíssima e que foca seus esforços na construção de uma sociedade mais igualitária, mas ela é humana e é claro que sofre pressões alheias. E é claro também que ela não consegue ser perfeita em sua postura 100% do tempo. Isso é lindo e humaniza a personagem. Dependendo do receptor, entretanto, a mensagem passada pelas cenas que trazem essa realidade à tona pode causar certa estranheza e até um sentimento de que a postura da personagem é “fake”, mas quem consegue ser 100% perfeito que atire a primeira pedra.

 

Mito do racismo reverso

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Racismo reverso não existe. Esse é um cuidado que deve sempre ser tomado quando é necessário falar sobre o assunto, para não correr o risco de legitimar o termo. O racismo é um fenômeno social comprovado,  explicado e estudado por ciências diferentes como a história, a geografia, a sociologia, a antropologia e o estudo das linguagens. Racismo reverso, por outro lado, é um mito largamente utilizado para expor situações em sua grande maioria singulares (ou seja, que não são coletivas) e pontuais. Cara Gente Branca toca nessa questão quando mostra alunos brancos que não consegue compreender seus privilégios e, de certo modo, evidencia o quão discrepante e injusta são as realidades vivenciadas pelos grupos negros e brancos dentro da universidade.

 

 

A síndrome do impostor

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Não é surpresa para ninguém que pessoas negras muitas vezes precisam se esforçar mais do que pessoas brancas para disputar e conquistar espaços que deveriam ser iguais. Essa pressão faz com que muitas vezes, quando se está no topo ou chegando lá, a pessoa negra se pergunte se ela é mesmo merecedora daquilo, se ela tem mesmo potencial para realizar tal tarefa ou se ela é uma farsa. O sentimento é legítimo e toca no ponto da autoestima das pessoas negras que, como citado no item sobre empoderamento estético, é constantemente massacrada (entre outros motivos) pela falta de representação. Na série, o militante Reggie e até mesmo o galã e bem-sucedido Troy passam por momentos de insegurança sobre suas capacidades. Não compreender que este sentimento faz parte de um contexto é o que embasa um outro mito: o da vitimização.

 

Esperamos que a divulgação destes temas e o protagonismo negro presente na série leve mensagens mais plurais aos espectadores e gerem mais empatia. Se colocar no lugar do outro é um exercício difícil, mas compreender a existência das batalhas que esse outro trava diariamente  já é um passo muito importante para isso. É de narrativas assim que precisamos: que dão um soco no estômago e que escancaram o que as pessoas insistem em ignorar.

Percebeu mais alguma temática importante na série? Manda pra gente em seus comentários.