A coluna Personagem do Mês apresenta quatro textos (um por semana) sobre uma personagem escolhida pela equipe do Séries Por Elas. Esses textos seguem a seguinte lógica:
1ª matéria: conta a trajetória da personagem e explica por que ela mereceu ser a personagem do mês
2ª matéria: mostra o que podemos aprender com a personagem e o que é melhor deixar pra lá
3ª matéria: buscamos inserir a personagem no contexto do blog, fazer link com empoderamento e feminismo
4ª matéria: vamos falar pouco da atriz. Curiosidades, declarações importantes e fofoquinhas saudáveis

Não sei se é de conhecimento geral, mas nas primeiras versões de Grey’s Anatomy constava na descrição das características físicas da personagem Miranda Bailey o adjetivo “loira”, uma tentativa de estabelecer uma relação entre o apelido de “Nazi” e o biotipo ariano. Ideia que não se perpetuou por muito, visto que Sandra Oh, que viria a interpretar Cristina Yang, inicialmente fez o teste para o papel de Bailey. Ideia que caiu por terra quando Chandra Wilson entrou na sala, aplicando-se para o papel. Palavras e reações de Shonda Rhimes que viria a contar essa história – não exatamente com essas palavras – revelando porque não mais se atém a descrições físicas pormenorizadas de seus personagens. Então foi mais ou menos assim que Chandra conquistou o papel e nos tem abrilhantado com seu talento e força em cena. Só que há muito mais aqui do que uma curiosidade.

Chandra começou a carreira de atriz nos palcos, ainda criança, ao cinco anos de idade, participando de musicais em sua cidade natal, Houston/Texas, nos EUA. Sim, ela também canta e dança, e das atividades extra-curriculares na época da escola, a dedicação à atuação virou um curso superior e uma carreira no circuito off-Broadway em Nova York. Dali ela rumou para a televisão e para o cinema, conquistando pequenos papeis, enquanto tocava uma carreira paralela de bancária. Entre outras produções., Wilson esteve no filme vencedor do Oscar Filadélfia, de Jonathan Demme (1993), e em séries como Sex and The CityThe Sopranos Law & Order.

A consagração e o reconhecimento do público vieram mesmo como Grey’s Anatomy, acompanhados por várias nomeações em premiações, incluindo ao Emmy e ao Screen Actors Guild Awards (inclusive, por este último levou, em 2007, o prêmio de melhor atriz coadjuvante em série dramática). Em paralelo a Grey’s, Chandra seguiu com a carreira no teatro e no cinema, mas investindo em filmes independentes de longa e curta-metragem. Um deles, Muted (Rachel Goldeberg, 2014), está no Vimeo (sem legendas) e teve resultados significativos pelos festivais pelos quais passou.

Extremamente dedicada à profissão e querendo ampliar seu campo, em 2009, Chandra dirigiu seu primeiro episódio de uma série de televisão. Começando em casa, na Shondaland, ela dirigiu “Give Peace a Chance” (6×07) e hoje já esteve à frente da direção de mais quinze episódios, considerando que mais estão por vir. De acordo com uma foto (abaixo) postada por Justin Chambers, intérprete de Alex Karev, Chandra está a postos dirigindo mais um episódio da décima quarta temporada de Grey’s. Além de episódios de sua série original, Wilson também se embrenhou por episódios de Scandal, também da Shondaland, e de The Forsters.

Director Chandra Wilson in the house…

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Chandra sempre manteve sua vida pessoal para si, porém há alguns anos ela decidiu expor a condição de uma de suas filhas, acometida pela síndrome do vômito cíclico, de dificílimo diagnóstico, e se tornou uma ativista. Ela até levou o quadro pessoal para os produtores e roteiristas de Grey’s, que abordaram a síndrome no episódio “Second Opinion” (9×06) e deram a ela a direção do episódio. Concomitantemente, Chandra também advoga por pessoas que sofrem de distúrbios mentais relacionados ou não ao abuso de substâncias químicas, tendo participado, em 2015, do 10º Annual Voice Awards, um evento que tutela sobre o tema.

Em meio a tudo isso, ter Chandra Wilson, mulher, negra e gorda dando voz, corpo e tom a uma das personagens mais emblemáticas e populares da televisão mundial, personagem essa que é mulher, negra e gorda e que ocupa posições de liderança, é extremamente significativo e representativo. Sobre sua própria carreira atualmente comparada há de dez anos, ela revela muita consciência da fragilidade do ramo, tendo declarado que “A única diferença na minha carreira agora é a visibilidade que eu tenho. As pessoas dizem que eu conquistei tudo agora, mas eu sinto como se estivesse fazendo uma temporada de verão”, em referência às curtas temporadas de peças teatrais.

O que a gente pode desejar é que ela fique por aí por muitas e muitas temporadas. Vida longa a Chandra Wilson!